Embalar, cantar baixinho, murmurar doces palavras, apertar contra o peito. Colo de mãe é assim: prazer indizível para quem dá, suprema delícia para quem recebe. Mães e filhos contam como vivem a sensação de dar amor ou sentir-se incondicionalmente amados.
Aconchegante, quente e macio, o colo de mãe aquece o corpo e nutre a alma. "Generoso, farto e gratuito, tem uma função essencial no começo da nossa existência: ele nos supre de vida e amor", assegura o psicólogo e consultor de desenvolvimento humano José Ernesto Bologna, de São Paulo.
Nesse regaço doce e acolhedor, é possível provar novamente a sensação de proteção e segurança vivenciada no útero e perdida após o nascimento. "O colo é um estágio intermediário entre a vida uterina, calma, segura e tranqüila, e a realidade do mundo, com seus medos, dores e frustrações", avalia.
Com o crescimento da criança, essa primeira experiência de amor e carinho se internaliza - não é necessária mais a presença física do colo da mãe. A segurança e o conforto proporcionados por ele na infância vão ser encontrados tanto dentro de si como em diferentes formas de amor. "O abraço da namorada ou a cumplicidade do amigo se transformam em outras maneiras de dar e receber colo", explica Bologna. "O colo adulto chega pela palavra carinhosa, pela cumplicidade, pelo apoio. E, nesse ponto da vida, é muito importante dar e receber essa forma de afeto", afirma Bologna. Em resumo, quem teve colo, maravilha. Quem não teve pode recebê-lo de outras formas.
Colos universais
A imagem de Nossa Senhora com um menino Jesus rechonchundo e sonhador no colo está inscrita em nossas mentes como o referencial máximo do amor carinhoso, presente e protetor. "A Virgem com o menino nos fala do amor ligado à vida, ao início", explica a antropóloga mineira Mariza Werneck, professora da PUC de São Paulo. É um vínculo alegre, cheio de esperança e ternura - neste instante preciso, a vida não trouxe ainda as marcas da dor. É a própria imagem do amor materno.
Mas outro símbolo potente da nossa cultura fala de outro tipo de amor, tingido pelas dores da vida. Ele é representado pela imagem da Pietá, célebre escultura de mármore de Michelangelo Buonarrotti, pintor e escultor italiano da Renascença. Neste momento, a Virgem segura o corpo do seu filho morto e olha compadecida para o seu rosto. "É o colo da compaixão, o amor que ampara e consola. Ele está relacionado ao sofrimento da vida", conta Mariza Werneck. "E está situado no outro extremo do ciclo - uma maneira de mostrar como o amor materno pontua toda nossa vida", lembra ela. "Essas duas imagens são duas referências de colo muito importantes na cultura ocidental. Sem perceber, somos tremendamente influenciados por esses ícones culturais. Eles nos sinalizam como o amor materno pode ser vivenciado", revela a antropóloga. "Existem até teses polêmicas que afirmam que o amor materno é aprendido por meio dessas e outras referências culturais e que não é instintivo, absolutamente", explica Mariza.
"Uma antropóloga, Elizabeth Badinter, causou furor na França na década de 70 ao afirmar que o amor materno como conhecemos hoje é muito recente na história do homem. Ela assegura que o amor entre mãe e filho só se aprofundou e se consolidou a partir do século XVIII, quando foi assegurada a sobrevivência de um número maior de filhos, com a melhoria geral das condições de vida", diz Mariza. De qualquer forma, mesmo se não concordarmos com essa tese, não podemos negar que as imagens culturais reforçam determinados tipos de amor. Elas estão muito perto de nós a todo momento - como nos filmes. Uma das cenas mais bonitas de Central do Brasil mostra o personagem de Fernanda Montenegro, uma mulher forte e de fibra, procurando o aconchego do menino que acompanhava, deitando a cabeça no seu colo. "Identifiquei imediatamente a inversão da imagem clássica de Nossa Senhora com o menino Jesus. Depois li uma entrevista com o diretor do filme, o carioca Walter Salles Jr., em que ele afirmava que a intenção tinha sido esta mesma: inverter a imagem do colo da Virgem com seu filho", revela Mariza. "Se olharmos com atenção, vamos ver esse padrão visual se repetindo de várias maneiras. A imagem do colo é fundamental na cultura do Ocidente", oberva Mariza. Por isso, ela sempre irá nos sinalizar com esse tipo, tão essencial, de amor. O amor de mãe.